terça-feira, 2 de maio de 2017

PLANETA TERRA RUMO AO GRANDE ATRATOR

 
Há vinte anos já se desconfiava: a Terra rodopia no espaço a mais de 2 milhões de quilômetros por hora. A novidade é que agora já sabemos para onde. Nosso destino é o Grande Atrator.

Desde a década de 70, os astrônomos suspeitam que a Terra viaja pelo Cosmo a 2,2 milhões de quilômetros por hora. Agora, eles acabam de descobrir para onde estamos indo. Vamos para o Grande Atrator, que fica atrás da fenomenal concentração de galáxias conhecida como aglomerado de Centauro. Pois assim é: o planeta é arrastado em rodopios pelo espaço. Primeiro, ao redor do Sol. Depois, com todo o sistema solar, em torno da Via Láctea. Esta, por sua vez, tem seu próprio movimento entre outras galáxias vizinhas… e assim por diante, até o Grande Atrator.

Depois de mais de vinte anos de pesquisas, os cientistas podem, enfim, apontar para um ponto na direção do aglomerado de Centauro, a mais de 137 milhões de anos-luz (um ano-luz equivale a 9,5 trilhões de quilômetros) e dizer: “É aqui!”. Mesmo sem nada conseguir enxergar naquele local, eles têm certeza de que o próprio aglomerado de Centauro é atraído por um superagrupamento de galáxias maior ainda — este sim, o tão procurado Grande Atrator. “Acreditamos que esse verdadeiro vespeiro de galáxias seja provocado pelo encontro de dois outros imensos grupos alinhados em forma de uma grande parede”, afirma o astrofísico Paulo Sérgio Pellegrini, do Observatório Nacional do Rio de Janeiro. “A massa desse incrível ‘bolo’ gera uma formidável força de gravidade que atrai as galáxias da região da Via Láctea e até mais além.”

Pellegrini faz parte da equipe chefiada por Luiz Nicolaci da Costa, que trabalha no mapeamento do Universo desde 1981. A pesquisa realizada pelos cientistas brasileiros, em colaboração com astrônomos da Argentina, do Chile e da África do Sul, foi fundamental na descoberta das chamadas “muralhas de galáxias” que levaram ao próprio Grande Atrator.

A idéia do Grande Atrator não é exatamente nova. Já na década de 70, desconfiava-se da existência da poderosa “draga” cósmica. Em 1986, um grupo de sete pesquisadores — cinco americanos, um inglês e um argentino — começava a desvendar o grande mistério. Os Sete Samurais, como são apelidados os astrônomos, famosos por aceitar e vencer grandes desafios cieníficos, previram que esse enigmático “ímã” deveria estar na direção do aglomerado de Centauro.

Por meio da observação de mais de 400 galáxias e de complexas equações matemáticas, eles calcularam as diversas direções e velocidades em que a Terra viaja. Isso porque o caminho dessa jornada é definido pela força de gravidade de diversos corpos ao nosso redor. O planeta gira em torno do Sol, que está preso a um dos braços da galáxia. A Via Láctea, por sua vez, faz parte de um grupo de cerca de trinta galáxias, que corre em direção ao aglomerado de Virgem. Calculando tudo, os cientistas concluíram que a viagem vai até mais além, numa região intermediária entre Centauro e Virgem.

“Pode-se comparar essa dança de forças à correnteza de um rio”, diz Pellegrini. “Em alguns pontos, a água acelera em turbilhão entre as pedras; às vezes, ela flui vagarosamente junto à margem, para, mais adiante, entrar em redemoinho. Mas, no final, o destino é um só: o mar.” Na escala cósmica, o Grande Atrator funciona justamente como um oceano, para onde as galáxias escorrem.

Os Sete Samurais descobriram, então, que a Terra avança através do espaço a estonteantes 2,2 milhões de quilômetros por hora. Ou seja, algo em torno de 5 000 vezes mais que a velocidade a que chegam os carros de corrida da Fórmula Indy, ou até cinqüenta vezes mais que os foguetes, que viajam a 40 000 quilômetros por hora. Alerta geral para a tripulação: parece que temos uma trombada astronômica pela frente. Mas não há motivo para pânico. Primeiro, porque existe uma boa chance de apenas “tirarmos uma fina” do ninho de galáxias. E segundo porque, mesmo que a Terra não resista a essa atração fatal, um eventual encontro com o Grande Atrator não deve acontecer antes de 130 quintilhões de anos.

Os Samurais previram a localização aproximada desse misterioso ímã, mas, em 1986, não sabiam dizer mais sobre o que ele é, ou como é. Isso porque — para cúmulo do azar — o Grande Atrator está escondido exatamente atrás do chamado disco da Via Láctea, uma região de intensa luminosidade, que prejudica a observação de pontos mais distantes.Por causa do disco, a visibilidade naquela direção é praticamente nula. Os cientistas só podem contar, então, com os satélites que medem a radiação infravermelha e ultravioleta emitida pelos astros. Mas a incógnita não duraria muito. Logo viriam novas informações sobre o complexo celeste que atrai a Terra.

Ainda em meados da década de 80, outra equipe de pesquisadores, liderada por Margareth Geller e John Huchra, do Centro de Astrofísica do Instituto Harvard-Smithsonian, nos Estados Unidos, surpreendia o mundo com a descoberta de um objeto até então inimaginável: uma gigantesca parede de galáxias, de 150 milhões de anos-luz de comprimento, na região do aglomerado de Virgem. A primeira reação dos cientistas foi de sutil descrédito.

Mas nem todos duvidaram de cara. Deste lado do mundo, os astrônomos brasileiros e seus colaboradores argentinos, chilenos e sul-africanos continuavam o levantamento do que existe na porção do Universo vista do Hemisfério Sul. E levaram a sério aquela história de muralha. Na verdade, os brasileiros desconfiavam dessas grandes concentrações de galáxias, havia já alguns anos.

Hoje, juntando todos os dados coletados em porções cada vez mais profundas (significa dizer, mais distantes) do Universo, foi marcada a posição de 3 600 galáxias. E — grata surpresa — foram achadas duas grandes paredes que se encontram bem perto do ponto onde os Sete Samurais previam que estaria o Grande Atrator, na região de Centauro. Com a participação dos brasileiros, o mistério começava a ser desvendado.

Mais do que identificar o Grande Atrator, as últimas observações comprovaram o que se acreditava ser absolutamente improvável. A combinação dos dados levantados nos hemisférios Norte e Sul — mais de 14 000 galáxias numa profundidade de 900 milhões de anos-luz da Terra — mostrou que a estrutura de paredes existe nas duas “metades” do céu. “Isso quer dizer que não há uma única Grande Muralha, mas que essas paredes são muito mais comuns do que se pensava”, comenta Nicolaci da Costa. “E levanta novas questões para a Cosmologia como, por exemplo, a de que o Universo talvez seja composto de bolhas de vazio rodeadas por paredes de matéria”.

Se essa hipótese se comprovar, significa que, em algum momento longínquo do passado do Universo, alguma estranha perturbação começou a dar verdadeiros “nós” de matéria em certos pontos do espaço. Como massa atrai massa, pela força de gravidade, a lógica prevê que isso acabaria mesmo causando o esvaziamento das regiões em torno desses pontos.

Nesse caso, pode-se imaginar o espaço cósmico dividido em casulos, como uma colméia irregular. As paredes de cada casulo constituem as muralhas por onde as galáxias escorregam em direção aos vértices — provavelmente os grandes atratores finais. O problema é que não existe nenhum modelo sobre a formação do Universo que explique o que seriam e como teriam surgido tais perturbações no início do Cosmo.

A descoberta do Grande Atrator não quer dizer, necessariamente, que tenhamos vislumbrado o ponto final dessa corrida maluca. Os astrônomos já estudam a possibilidade de outras paredes de galáxias estarem influindo em todo o movimento. Desse modo, o Grande Atrator criado pela intersecção de duas muralhas deve ser a força predominante nas nossas redondezas — que é tudo o que temos, mais ou menos mapeado.

“Já existem indícios de que outra parede, chamada Perseus-Peixes, na região do céu oposta a Centauro, seja outra fonte de atração a influir em todo esse movimento”, conclui Pellegrini. A resposta definitiva a todas essas questões ainda depende de muita observação. Afinal, como diz Margareth Geller, “em termos astronômicos, ainda não conseguimos ver além do jardim da nossa própria casa”.

O Universo em cubos
A estrutura do Cosmo pode ser comparada a uma colméia, a um grupo de bolhas de sabão, ou, para ficar fácil de visualizar, a cubos empilhados. Segundo a teoria, as galáxias tendem a se juntar em “paredes” ou “muralhas”, que seriam as faces justapostas dos cubos

As faces dos cubos atraem mais e mais galáxias para compor as muralhas. Assim, o interior dos cubos fica cada vez mais vazio e as paredes, cada vez mais densas

As arestas são formadas pelo encontro de paredes. Aí, a concentração a de massa é ainda maior que nas paredes, o que aumenta também a força de gravidade

Finalmente, os vértices — ponto de encontro das arestas dos cubos — são os locais de maior densidade. Portanto, devem ser também os de maior força gravitacional

Um conjunto de bolhas de sabão também é uma boa imagem para o Universo. A única diferença em relação à figura à esquerda é que aqui as paredes e muralhas
são arredondadas.

super.abril.com.br/tecnologia/atencao-tripulacao-terra-rumo-ao-grande-atrator/

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