sábado, 29 de setembro de 2012

MONGES TIBETANOS ESTUDAM CIÊNCIA

Estudantes da Universidade Emory, em Atlanta, se revezam  
para observar através de um microscópio durante uma aula


Monges e monjas tibetanos passam suas vidas estudando o mundo íntimo da mente, e não o mundo físico da matéria. Mas, por um mês no trimestre passado, um grupo de 91 deles se dedicou ao estudo do reino corpóreo da ciência.

Em lugar de analisarem textos budistas sobre o karma e o vazio, os monges aprenderam sobre a lei do movimento acelerado de Galileu, cromossomos, neurônios e o Big Bang, entre outros tópicos muito diversificados. Muitos dos integrantes do grupo, formado por pessoas dos 20 aos 40 e tantos anos, jamais haviam aprendido ciência e matemática. Nos mosteiros budistas do Tibete, o currículo se mantêm inalterado e inconteste há séculos.

Para tornar o desafio ainda mais difícil, alguns dos monges tinham domínio bastante limitado do inglês e precisavam recorrer a tradutores tibetanos a fim de absorver o curso intenso de quatro semanas sobre física, biologia, neurociência, matemática e lógica oferecido pelos professores da Universidade Emory, em Atlanta.

Mas os monges transformaram as aulas, que aconteciam em período integral, numa forma de experiência prática. No campus de uma faculdade budista aqui em Dharamsala, Índia, o lar do Dalai Lama no exílio, monges e monjas em seus roupões carmesim conduziram experiências com pêndulos, recolheram plantas nos sopés das montanhas do Himalaia para aprender sobre a seleção natural e inclinaram suas cabeças calvas por sobre os microscópios para observar um mundo que lhes era desconhecido.

Os monges e monjas tibetanos passam 12 horas ao dia estudando filosofia e lógica budista, recitando orações e debatendo textos religiosos. Mas a ciência vem sendo objeto de uma campanha especial de estímulo iniciada pelo Dalai Lama, que há muito vem advogando a adoção de métodos modernos de educação nos mosteiros e escolas tibetanos no exílio, sem que isso implique em abandonar as tradições tibetanas. A Índia abriga uma população ao menos 120 mil tibetanos, a maior comunidade estrangeira de pessoas oriundas do país.

A ciência pode parecer contraditória com relação aos rituais religiosos tibetanos. A reencarnação de altos sacerdotes tibetanos é identificada por meio de sonhos e augúrios. O Dalai Lama atribui ao oráculo do país a informação que o ajudou a fugir do Tibete em 1959, enquanto as tropas chinesas avançavam contra a capital, Lhasa.

Mas o líder espiritual tibetano considera que ciência e budismo sejam "abordagens investigativas" complementares, ambas "dirigidas ao mesmo grande objetivo, a busca pela verdade", como escreveu o líder religioso em "The Universe in a Single Atom" o universo em um único átomo, seu livro sobre "como a ciência e a espiritualidade podem servir ao mundo". O Dalai Lama enfatiza que a ciência é especialmente importante para os religiosos que estudam a natureza da mente e o relacionamento entre cérebro e mente.

A resistência inicial de alguns monges importantes e o medo de diluição dos estudos tradicionais nos mosteiros se reduziram gradualmente. Agora, o Dalai Lama espera que, com a ajuda da Universidade Emory e de outros programas, a ciência se torne parte de um novo currículo, que incluirá livros científicos em tibetano e tradutores especializados, para resultar em uma geração de líderes religiosos com uma boa fundação de conhecimento científico.

Existem outros motivos para integrar a ciência ao budismo tibetano. Os tibetanos estão registrando o 50° aniversário de seu exílio, este ano, e o retorno à pátria parece continuar improvável. A necessidade de manter a identidade cultural tibetana viva, mas também moderna e relevante, está ganhando urgência à medida que o Dalai Lama, 73, envelhece.

"Caso nos mantenhamos isolados, desapareceremos", disse Lhakdor, diretor da Biblioteca de Obras e Arquivos Tibetanos, em Dharamsala. O Dalai Lama mesmo declarou em muitas ocasiões que o isolamento com relação ao mundo foi um fator que facilitou a queda do Tibete diante da agressão chinesa. Lhakdor também vê semelhanças e não contradições entre a ciência e o budismo. Como no budismo, "a abordagem da ciência em geral se baseia em constatações isentas realizadas por meio de observação, análise e da descoberta da verdade", ele apontou.

Há outros líderes ainda mais francos quanto à necessidade de aprender ciência. "O século 21 já chegou", diz Tenzin Lhadron, uma monja de 34 anos e muito franca, que se inscreveu no curso de ciências deste ano. "Todo mundo é influenciado pela ciência. Nós queremos saber do que se trata".

Ela não conta com qualquer educação formal, a despeito dos 19 anos que dedicou aos estudos do budismo em um monastério em Dharamsala. Para ela, a matemática apresenta séria dificuldade; frações e porcentagens são algo de completamente novo. "Mas vou tentar aprender", ela prometeu.

A Iniciativa Emory de Ciência para o Tibete, que responde pelos cursos que estão sendo realizadas agora, está em seu segundo ano. Ela foi precedida por um programa conhecido como "Ciência para Monges", criado em 2001 com o apoio de Bobby Sager, um filantropo de Boston. A pedido do Dalai Lama, o programa anterior trouxe professores de ciências de diversas universidades norte-americanas para lecionar a monges tibetanos na Índia.

O programa original se desenvolveu e resultou em um plano apoiado pela Universidade Emory com o objetivo de introduzir a ciência nos mosteiros tibetanos da Índia, nos próximos anos, com a ajuda da biblioteca tibetana de Dharamsala.

A iniciativa da Emory resultou em um manual científico bilíngue em inglês e tibetano, produzido por professores da universidade e tradutores vinculados à biblioteca. Conferências de tradução resultaram em um glossário científico que introduziu termos como "eletromagnetismo", "mudança climática" e "clonagem" no idioma tibetano.

O programa original de ciência para monges se transformou em um seminário anual de liderança científica com duas semanas de duração, dirigido a estudantes avançados que desfrutam todos do título "geshe", o equivalente a um doutorado para os religiosos tibetanos. Este ano, o evento culminou com a primeira "feira de ciências" já realizada em Dharamsala, entre os dias 22 e 24 de junho.

Os monges fizeram apresentações sobre ondas sonoras, as origens do universo e a forma pela qual o cérebro trabalha. A Universidade Emory projeta o curso de verão como um programa de cinco anos, com aulas gradativamente mais avançadas, nos anos posteriores, para os novos estudantesUm terceiro programa, conhecido como "o encontro entre a ciência e o dharma", desde 2002 envia alunos de pós-graduação de universidades europeias para os mosteiros tibetanos na Índia, onde eles lecionam ciência básica. Quando alguns dos monges se matriculam nos programas científicos mais avançados, eles já passaram por alguns anos de instrução científica.

Paulo Migliacci ME
The New York Times

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